Ciência e Tecnologia

Desperdício de alimentos – pequenas mudanças na cozinha podem evitar que comida vá para o lixo

Planejamento das compras ajuda a reduzir o desperdício de alimentos e ainda pode aliviar o orçamento familiar.
Cascas, talos, folhas, sementes e sobras podem ganhar novas receitas quando estão próprios para o consumo.
Combater o desperdício de alimentos exige mudanças de hábitos em toda a cadeia, da produção à mesa.

Todos os dias, uma quantidade significativa de alimentos que ainda poderia ser consumida acaba no lixo. O desperdício de alimentos é um problema que começa muito antes de a comida chegar à mesa e também está presente dentro das próprias residências. Na América Latina, segundo estimativas da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), são desperdiçadas 127 milhões de toneladas de alimentos. No Brasil, cerca de 30% do que é produzido acaba sendo descartado, de acordo com dados do IBGE. O volume representa aproximadamente 46 milhões de toneladas por ano e uma perda econômica estimada em R$ 61,3 bilhões. Embora o problema tenha grandes dimensões, atitudes simples no dia a dia podem ajudar a mudar esse cenário. Planejar as compras, organizar a geladeira, armazenar corretamente os alimentos e aproveitar partes normalmente descartadas são algumas maneiras de reduzir o desperdício de alimentos dentro de casa.

Desperdício começa antes de a comida chegar à mesa

O desperdício de alimentos não acontece somente quando uma refeição preparada termina no lixo. Ele pode ocorrer em diferentes etapas da cadeia alimentar, desde a produção até o consumo.

A nutricionista e mestre em Ciência dos Alimentos Patrícia Campos Ferraz explica que é importante diferenciar perda de desperdício. A perda pode ocorrer durante a produção, a colheita, o armazenamento, o transporte e o processamento. Já o desperdício está mais relacionado ao alimento que chega ao varejo, aos restaurantes e às residências, mas acaba descartado mesmo ainda tendo valor para o consumo.

Por isso, enfrentar o problema exige mudanças em toda a cadeia. Dentro de casa, porém, algumas escolhas podem fazer diferença.

Planejar as compras é um dos primeiros passos. Antes de ir ao supermercado ou à feira, vale observar o que já existe na despensa e na geladeira e comprar apenas a quantidade necessária para o número de pessoas da família. O armazenamento correto também ajuda a conservar os produtos por mais tempo.

Mais do que simplesmente evitar que comida seja jogada fora, a proposta é mudar a relação com os alimentos. Isso envolve pensar no que será comprado, como será armazenado, preparado e consumido.

Partes que iriam para o lixo podem virar novas receitas

Cascas, folhas, talos, sementes e algumas raízes são frequentemente tratados como restos, mas podem ser aproveitados quando estão próprios para o consumo e são devidamente higienizados.

Folhas de cenoura e beterraba, por exemplo, podem entrar em refogados, omeletes, sopas e farofas. Talos de brócolis, couve-flor e couve podem ser utilizados em arroz, tortas, recheios e refogados. As sementes de abóbora podem ser torradas e consumidas como aperitivo ou acrescentadas a saladas. A própria casca da abóbora também pode ser aproveitada quando estiver adequada para o consumo.

Além de evitar o desperdício, o aproveitamento integral pode contribuir para uma alimentação mais variada. Dependendo do alimento e da parte analisada, cascas, folhas e talos podem concentrar fibras, minerais e compostos bioativos.

As frutas também oferecem possibilidades. Cascas de maçã, pera e algumas frutas cítricas podem ser utilizadas em bolos, geleias, compotas e chás, desde que estejam em boas condições. O bagaço que sobra do preparo de sucos também merece atenção, pois o descarte dessa parte fibrosa significa perder uma parcela das fibras presentes na fruta.

Outro ponto importante é saber diferenciar maturação de deterioração. Uma fruta madura, mais macia ou com pequenas alterações na aparência não significa necessariamente que esteja estragada. Ela pode ser utilizada em vitaminas, receitas ou congelada para consumo posterior.

Já alimentos com mofo, odor anormal ou sinais de apodrecimento devem ser descartados.

Sobras podem ganhar uma segunda chance

O mesmo cuidado vale para as sobras das refeições. Alimentos preparados, mas que não chegaram ao prato, podem ser armazenados adequadamente e transformados em novas preparações.

O arroz cozido pode virar arroz de forno ou bolinho. Legumes podem ser aproveitados em omeletes, tortas e sopas. Carnes e frango podem ser utilizados em recheios, sanduíches e saladas. O feijão pode ser congelado em pequenas porções, enquanto frutas maduras podem ser armazenadas no congelador para o preparo de vitaminas e outras receitas.

É importante, entretanto, diferenciar essas sobras dos alimentos que permaneceram no prato e foram manipulados durante a refeição. Nesse caso, é necessário ter maior cuidado com a segurança alimentar.

O congelamento é um aliado importante no combate ao desperdício de alimentos, pois aumenta a conservação e facilita a organização das refeições. Mas alimentos perecíveis e preparações prontas não devem permanecer por longos períodos em temperatura ambiente.

De acordo com orientações da Anvisa, alimentos quentes devem ser mantidos acima de 60 °C e alimentos frios abaixo de 5 °C. Sobras que serão consumidas posteriormente devem ser armazenadas rapidamente em recipientes limpos e fechados e mantidas sob refrigeração.

Uma medida simples é identificar os recipientes com a data de preparo ou congelamento. A etiqueta ajuda a organizar a geladeira e o congelador e diminui a possibilidade de alimentos serem esquecidos.

Reduzir o desperdício de alimentos, portanto, não depende apenas de grandes mudanças. Começa em escolhas cotidianas: comprar melhor, armazenar corretamente, aproveitar integralmente o que é próprio para o consumo e transformar sobras em novas refeições.

São atitudes que podem representar economia para a família e, ao mesmo tempo, contribuir para uma relação mais consciente e responsável com a comida. Afinal, antes de chegar ao lixo, muitos alimentos ainda podem ter uma nova oportunidade à mesa.

 

 

Fontes – USP

Texto com apoio da Inteligência Artificial/Edição da Coopnews

Foto – Kátia Mello/ Flickr

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