As vozes, histórias e símbolos da Amazônia atravessam fronteiras em uma jornada marcada pela força das encantarias. A manifestação cultural, que reúne saberes tradicionais, narrativas populares e diferentes formas de conexão com a natureza, ganha novos espaços ao chegar ao Sudeste brasileiro. O movimento busca valorizar conhecimentos construídos ao longo de gerações e aproximar diferentes públicos da riqueza cultural amazônica. Mais do que uma expressão artística, as encantarias representam memória, identidade e a relação profunda entre povos amazônicos e seus territórios. A iniciativa reforça a importância de preservar e compartilhar essas tradições, mostrando que a cultura da Amazônia continua viva, em transformação e capaz de dialogar com diferentes regiões do país.
A“encantaria” é uma das manifestações afroindígenas mais conhecidas no Norte e no Maranhão, portanto, no Nordeste também. Além de possuir uma gama de elementos que se manifestam na Umbanda, em alguns terreiros de Candomblé e principalmente no Tambor de Mina e no Terecô, esse fenômeno está presente no cotidiano do norte brasileiro.
No Pará, existem as famosas lendas do “Boto namorador” e de suas façanhas, facilmente contadas por aqueles que já experienciaram seus galanteios. Sua fragrância, encontrada no mercado do Ver-o-Peso, promete a magia que só a encantaria, como dizem as próprias erveiras, consegue realizar. O encantado, portanto, seria aquele que não passou pelo processo de morte, encantou-se, podendo se encantar em plantas, animais, matas e rios.
Em alguns segmentos de estudos sobre religiões afro-brasileiras, referencia-se uma identidade cultural baseada e centrada no eixo Rio de Janeiro–São Paulo, direcionando olhares à Bahia, mas especificamente à Salvador, pois os principais terreiros investigados, em determinados períodos, se concentravam na capital, apresentando uma diversidade e buscando um conceito equivocado de “pureza” a partir do Candomblé Nagô, muito bem explorado pela antropologia desde o século 19.
Outras manifestações, sobretudo no contexto amazônico, ficaram concentradas em seus respectivos lugares, inseridas em contextos “regionais” sendo amplamente investigadas por estudiosos que pouco são explorados nos estudos religiosos brasileiros, como Anaíza Vergolino e Taissa Tavernad de Luca com o culto afro-paraense, Heraldo Maués e Angélica Maués com os cultos afroindígenas na Amazônia, Sérgio Ferreti e Mundicarmo Ferretti com sua etnografia sobre a Casa das Minas e a Casa de Nagô, respectivamente, em São Luís, Maranhão, Martina Ahlert com o Terecô no Codó, Maranhão e muitos outros autores pouco referenciados e lidos no eixo Sul e Sudeste do Brasil.
A encantaria do Tambor de Mina em São Paulo
O Tambor de Mina é uma religião afrobrasileira popular nos estados do Pará e Maranhão na qual cultua-se voduns, orixás e encantados. A Mina chega a São Paulo justamente pelas mãos de um paraense, Pai Francelino de Xapanã, em meados da década de 1970, trazendo consigo uma religiosidade e um culto muito diferentes do que já estava estabelecido na cidade com o Candomblé e a Umbanda.
Sua chegada causa grande estranhamento, a ponto de algumas lideranças religiosas da região descredibilizarem sua imagem enquanto sacerdote e deslegitimarem sua prática religiosa classificando o tambor de mina como “Umbanda alegre”, indicando evidentemente tensões presentes no processo da chegada da religião na cidade de São Paulo. O culto aos voduns e encantados era praticamente desconhecido em São Paulo, gerando diversos conflitos e debates sobre o que seria aquela manifestação religiosa.
Pai Francelino foi iniciado no Pará pelas mãos de Mãe Joana de Xapanã que faleceu um tempo antes do sacerdote mudar-se para o Rio de Janeiro por questões profissionais. Transitando entre Rio de Janeiro e por cidades como Curitiba, foi em São Paulo que ele se estabeleceu e construiu suas raízes mineiras. Precisando realizar suas obrigações de 14 e 21 anos, importantíssimas para uma liderança afroreligiosa, Pai Francelino estabeleceu um contato com Pai Jorge de Itacy, notável autoridade religiosa no Maranhão e fundador do famoso Terreiro de Iemanjá, onde realizou suas obrigações.
Essa ligação entre os estados do Pará e Maranhão, que costumamos chamar de “primos”, entrega uma combinação de elementos culturais fortemente presentes na Casa de Thoya Jarina, e nas demais casas que surgem a partir dela, como o Carimbó e o Círio de Nazaré, expressando e demarcando um território por muitos anos esquecido e desconhecido pelo Sudeste brasileiro.
Com o passar do tempo, graças a sua persistência nos debates e na constante presença entre as lideranças afroreligiosas de São Paulo, Pai Francelino consegue se estabelecer enquanto uma importante autoridade religiosa, tendo fundado a Federação de Umbanda e Cultos Afro-Brasileiros de Diadema (Fucabrad) e tornou-se coordenador do Instituto Nacional da Tradição e Cultura Afro-Brasileira (Intecab) de São Paulo, sendo conhecido e reconhecido por muitos sacerdotes no estado.
Os estudos antropológicos realizados por Vagner Gonçalves da Silva e Reginaldo Prandi contribuíram para que o tambor de mina em São Paulo ganhasse certa visibilidade nos estudos acadêmicos, trazendo dados como famílias, informações sobre a trajetória do sacerdote e um vasto quadro com os filhos iniciados pelas mãos de Pai Francelino e que se estabeleceram não apenas em São Paulo, como no Sul do Brasil. Em 2007, o sacerdote veio a falecer em decorrência de complicações de saúde deixando o seu legado sucedido por Toy Voduno Márcio de Boço Jara, atual liderança da Casa de Thoya Jarina.
Mobilidade das entidades
Uma das características mais interessantes do tambor de mina certamente são os encantados. Irônicos, divertidos e sorridentes, transformam a seriedade da espiritualidade no que costumam chamar de “brincadeira”. Não pense que por ter este nome não deve ser levada a sério, pelo contrário, brincadeira de encantado é coisa muito séria. Autônomos, possuem uma socialização que vai muito além do transe espiritual no médium. Vivem em seus reinos encantados, ou mais conhecido como Encantaria, e lá resolvem suas “pendências” pessoais sem misturar com sua vida social aqui na terra.
A mobilização dos encantados em São Paulo mostra-se muito eficaz ao trazer elementos culturais “das terras de lá”, como se referem ao Pará e Maranhão, para a capital. É o encantado Antônio Légua, que traz uma perspectiva mais aprofundada do Carimbó para as celebrações do Carnaval de Rua com o bloco Cavaleiros de Doçu e para as festas de Cosme e Damião que acontecem na casa do Pai Leonardo de Toy Doçu, lideram o Bou Hou Mina Jeje/Nagô Vodun, o Pai Toy Agadjá Doçu junto de sua esposa Beth de Oyá, filhos do Pai Francelino. Embora Seu Antônio Légua seja um encantado do Maranhão, mais especificamente da família de Légua, do Codó, ele sempre ressalta sua paixão pela cultura paraense.
Martina Ahlert, lembra que os encantados do Terecô, que são da família de Légua, se movimentam e viajam muito, seja por conta dos deslocamentos dos filhos, mestres e pais e mães de santo, que passam a migrar e morar em outros lugares, ou pelas mobilidades das próprias entidades, que, segundo a autora, se movimentam acompanhando seus médiuns ou por conta própria, pois esses espíritos têm a capacidade de estar em constante movimento.
Thereza Légua é também uma encantada fortemente ligada ao tambor de crioula, manifestação cultural afrobrasileira oriunda do estado do Maranhão e praticada em louvor a São Benedito. A encantada, na cabeça de Mãe Sandra de Xadantã, líder do Kwê Mina Odan Axé Boço Dá-Hô criou em meados de 2011, o coletivo Tambor de Crioula Dona Teca, no qual Mãe Sandra realiza diversas apresentações em eventos culturais com o intuito de manter viva e difundir a tradição do tambor de crioula maranhense na região de metropolitana de São Paulo.
Foi nesse sentido da mobilidade de seres e pessoas que surgiu a Festa do Bumba Meu Boi do Morro do Querosene, Zona Oeste de São Paulo, organizado pelo Grupo Cupuaçu, grupo este fundado pelo mestre Tião Carvalho. Essa tradicional festa acontece em São Paulo há 40 anos, por meio do esforço, da criatividade e da inciativa de um grupo de maranhenses, Tião Carvalho, Ana Maria Carvalho, Graça Reis, Henrique Menezes, que passaram a residir na cidade trazendo consigo um pouco da cultura e da encantaria maranhense para a região. A Festa do Boi, como é chamada por seus frequentadores e organizadores, ocorre três vezes ao ano acompanhando um ciclo ritualístico de nascimento, batizado e a morte do boi. Segundo Ariel Coelho, brincante e especialista em música da cultura popular, esse ciclo representa justamente os próprios ciclos da vida.
Ariel destaca que, na Festa do Boi do Morro do Querosene, junta-se o sotaque, que são estilos e diferentes formas de tocar, dançar e se vestir, envolvendo instrumentos e ritmos únicos como o da Baixada e o da Ilha, esse último também chamado de sotaque de Matraca, agregando diferentes personagens que fazem referência à encantaria maranhense. Figuras como Caboclo de Pena, Cazumbá e as Índias que estão presentes nessa festa, representam justamente entidades do povo da mata.
Martina Ahlert observa, que em Codó, onde a autora realizou sua pesquisa de doutorado, essas figuras não são personagens no sentido “teatral” do termo, pois existem muitas entidades que dançam o boi. Segundo Martina, no Codó existem os bois de terreiros e de encantados, e existem muitas pessoas que dançam o boi incorporadas de entidades, a família de Légua, por exemplo, é uma família que gosta muito do boi e pede boi nos terreiros.
Do Bumba Meu Boi no Maranhão ao Boi Bumbá de Parintins no Amazonas
Essa tradição da cultura popular maranhense é permeada pela encantaria e a espiritualidade afroindígena, seja nos instrumentos utilizados, nas referências dos trajes e personagens das festas, nas toadas, na musicalidade que parece manter um forte aspecto “xamânico” e, sobretudo, no território e nas territorialidades que compõem as paisagens e os atores desses lugares. O Bumba Meu Boi do Maranhão atravessa a fronteira e chega à Amazônia Parintinense por meio da migração maranhense, ainda no século 20, durante o ciclo da borracha.
É nesse movimento de confluências que surge o Festival do Boi Bumbá de Parintins, no Amazonas. Ainda que haja aproximações entre ambas as manifestações inclusive na utilização de termos e categorias como “toadas”, “amo do boi” e a própria centralidade do boi (no Maranhão chamado de “miolo do boi” e no Amazonas de “tripa do boi”), diferentemente do Bumba Meu Boi, em Parintins a festa do boi mantém um caráter muito mais competitivo entre os bois Caprichoso (azulo e preto) e Garantido (vermelho e branco).
O Festival do Boi Bumbá de Parintins agregou elementos e fundamentos do Bumba Meu Boi do Maranhão, porém muito mais atrelado e inspirado a uma perspectiva indígena dos diversos povos que povoam os territórios das “Amazônias”. As toadas dos bois, que muitas das vezes fazem referência aos mitos e cosmologias indígenas, também falam a despeito das encantarias e dos encantados que se fazem presentes nos rios, nas florestas, nos animais e nas narrativas que formam e moldam as corporalidades amazônicas. Corporalidades essas possíveis de serem pensadas através dos encontros e conexões aforindígenas, como destacado por Márcia Gabriele Ribeiro Silva em sua pesquisa sobre a trajetórias de mães de santo de Parintins, evidenciando, assim, os terreiros de memórias afroindígenas presentes na região.
Nos terreiros de Umbanda, Tambor de Mina, e dentre outros, as manifestações dos encantados relembram sempre um reencontro entre amigos de outrora, pois quando “descem”, vem também para celebrar àqueles que tem o seu caminho atravessado por um.
Fonte – USP
Texto com apoio da Inteligência Artificial/Edição da Coopnews
Foto – USP




