Saberes tradicionais, produtos da floresta e identidade regional estão ganhando espaço como ativos de mercado na Amazônia. Experiências com a farinha de Cruzeiro do Sul e o açaí de Feijó, no Acre, além do mel de Boa Vista do Ramos, no Amazonas, mostram como a Indicação Geográfica (IG) pode transformar características próprias de um território em reconhecimento comercial. Os produtos foram apresentados durante o Inova Amazônia Summit 2026, realizado de 17 a 19 de setembro, em Rio Branco (AC). O selo, concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), reconhece produtos e serviços associados à origem, às características e aos conhecimentos tradicionais de determinada região. Para produtores e cooperativas, o reconhecimento não representa apenas uma identificação territorial, mas também uma oportunidade de agregar valor, melhorar processos de produção, ampliar a confiança do consumidor e alcançar novos mercados. As experiências apresentadas mostram ainda que modernização, controle de qualidade e tradição podem caminhar juntos sem romper a relação dos produtos com suas comunidades de origem.
Tradição que virou diferencial comercial
A farinha de Cruzeiro do Sul é um dos exemplos mais consolidados. O produto recebeu a Indicação Geográfica em 2017, em um processo que contou com a participação da Central das Cooperativas do Juruá, formada por cooperativas de cinco municípios da região.
O produtor José Oliveira do Nascimento, de 47 anos, trabalha há 35 anos com mandiocultura e acompanhou parte dessa trajetória. Segundo ele, a organização das cooperativas foi fundamental para estabelecer padrões e fortalecer a identidade da farinha produzida no território.
A IG também trouxe resultados econômicos. O produtor destaca o apoio do Sebrae na agregação de valor e afirma que o reconhecimento contribuiu para melhorar a rentabilidade da atividade.
Além da valorização comercial, o processo estimulou mudanças na produção. Foram adotadas boas práticas de fabricação e procedimentos de padronização, enquanto a produção passou por modernização. De acordo com o produtor, atualmente a farinha pode alcançar até dois anos de durabilidade, mantendo suas características de qualidade.
O selo também ajuda o consumidor a diferenciar o produto original de outros que utilizam referências ao Vale do Juruá sem necessariamente terem a mesma origem. Para os produtores, essa identificação fortalece a relação entre território, qualidade e confiança.
Açaí de Feijó amplia presença além do município
Em Feijó, a história do açaí também está diretamente ligada à cultura local. Antônio José da Conceição, de 55 anos, é filho de produtor e integra a Cooperativa de Produtores, Coletores e Batedores de Açaí de Feijó (Açaí COOP).
Durante muito tempo, o açaí foi destinado principalmente ao consumo das famílias tradicionais. A criação do Festival do Açaí, em 1999, ajudou a divulgar o produto e ampliar sua presença para além do município.
A busca pela Indicação Geográfica ganhou novo impulso a partir de 2021, depois de interrupções provocadas pela pandemia de Covid-19. Em 2023, o açaí de Feijó conquistou o reconhecimento.
Para Antônio, a IG representa uma possibilidade de ampliar a comercialização e dar maior visibilidade ao produto, cuja produção mantém forte ligação com o extrativismo e as comunidades tradicionais.
A qualidade também passou a ser associada a procedimentos mais rigorosos em toda a cadeia. Produtores e batedores recebem capacitações sobre boas práticas, com acompanhamento da cooperativa, da vigilância sanitária e do Sebrae.
Um dos cuidados destacados é o intervalo entre a coleta e o processamento. Segundo o produtor, o açaí precisa ser colhido, transportado e processado em até 24 horas para preservar a qualidade.
A atividade também vem incorporando pequenas fábricas e estruturas de processamento mais adequadas. A mudança demonstra como uma produção tradicional pode incorporar tecnologia, higiene e organização sem abandonar sua ligação com a cultura amazônica.
Mel de Boa Vista do Ramos representa a força do Amazonas
A experiência apresentada no evento também ultrapassa as fronteiras do Acre. No Amazonas, a produção de mel de Boa Vista do Ramos conquistou reconhecimento por meio da Indicação Geográfica.
Arlindo de Oliveira Cardoso, de 39 anos, trabalha há mais de duas décadas com mel e acompanhou durante quatro anos o processo que levou à certificação. Para ele, a conquista representa o reconhecimento de uma atividade profundamente ligada à identidade do município.
A produção de mel movimenta outras iniciativas locais, como a Rota do Mel, a Festa do Mel, feiras e atividades relacionadas à gastronomia e à produção de bebidas. A cadeia produtiva passou, ainda, por mudanças relacionadas à higiene, equipamentos de proteção e utilização de materiais e utensílios adequados.
Arlindo ressalta que a qualidade precisa ser construída desde o início do processo, ainda no meliponário e nas caixas onde as abelhas são manejadas. Qualquer falha nas etapas iniciais pode comprometer o produto final.
A experiência dos três produtos revela um ponto em comum: a Indicação Geográfica não substitui a tradição, mas pode ajudar a organizá-la, protegê-la e transformá-la em diferencial econômico. Ao reunir origem, qualidade, conhecimento tradicional e profissionalização, farinha, açaí e mel mostram caminhos para que produtos amazônicos conquistem reconhecimento sem perder a identidade dos territórios onde são produzidos.
PALAVRAS-CHAVE – Indicação Geográfica produtos amazônicos
Fonte – Agência Sebrae de Notícias — matéria de Pâmela Celina, publicada em 18 de setembro de 2026.
Texto com apoio da Inteligência Artificial/Edição da Coopnews
Foto – Jhelielson Maia




