A busca por segurança, autonomia e equilíbrio físico tem provocado uma mudança silenciosa, mas extremamente poderosa, nos tatames brasileiros. Cada vez mais mulheres estão descobrindo que as modalidades de combate vão muito além de técnicas de autodefesa contra a violência urbana. No Centro de Educação Física, Esportes e Recreação (Cefer) da USP, por exemplo, aulas de Taekwondo, Jiu-Jitsu e Muay Thai registram uma procura crescente do público feminino. Motivadas inicialmente pelo condicionamento físico ou pelo desejo de se proteger, as praticantes encontram nas artes marciais para mulheres um espaço para desenvolver consciência corporal, autoconfiança e uma postura inteiramente nova diante da vida. Esse movimento reflete uma tendência nacional: uma pesquisa recente de 2026 aponta que mais de 57% das brasileiras gostariam de aprender a lutar para se proteger, enquanto 54% sentem que a prática amplia diretamente sua independência. Sob a condução de lideranças femininas e em ambientes acolhedores, a experiência de treinar combate tem se transformado em uma jornada coletiva de emancipação, ajudando a resgatar o controle sobre o próprio corpo, estabelecer limites claros no cotidiano e ressignificar a forma como as mulheres ocupam e se posicionam nos espaços públicos.
Do Cansaço Físico à Assertividade no Dia a Dia
Para muitas mulheres, a porta de entrada no mundo das artes marciais costuma ser a busca por uma atividade física dinâmica e desafiadora. Foi exatamente assim que começou a trajetória de Marina Canevazzi, estudante de Farmácia da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP. Sentindo-se exausta com a rotina acadêmica e em busca de melhorar o condicionamento físico, ela encontrou no Taekwondo a intensidade que procurava.
No entanto, o impacto de calçar o protetor de pé e pisar no tatame foi muito além de queimar calorias ou ganhar fôlego. “Eu comecei no Taekwondo porque precisava melhorar meu condicionamento físico… me sentia muito cansada para as atividades diárias”, relata a estudante. Em pouco tempo, a melhora corporal transbordou para a vida pessoal e social. Marina passou a notar mudanças drásticas na forma como se comunica, se posiciona e se impõe diante dos outros. “Socialmente, agora consigo ser mais expansiva, ter mais confiança no que falo, na minha maneira de falar, em como abordo as pessoas”, diz. A luta trouxe uma firmeza que ela carrega para fora da universidade, permitindo-lhe dizer “não” com mais convicção e estabelecer limites claros em situações desconfortáveis do cotidiano, diminuindo os riscos de vulnerabilidade.
A Força da Representatividade e do Acolhimento no Tatame
Essa transformação integral não ocorre por acaso. Ela é cultivada de perto por profissionais que entendem as barreiras que as mulheres enfrentam ao entrar em espaços historicamente masculinizados, como as academias de luta. Izabela Guerra Pereira, professora de Taekwondo no Cefer da USP há quatro anos, observa que o crescimento do público feminino nas suas aulas está diretamente ligado à representatividade. “Ter o Cefer como um centro concentrando modalidades ajuda, mas eu acredito que ser uma mulher dando aulas também ajude muito”, explica Izabela, destacando o ecossistema de incentivo à prática esportiva da universidade.
O acolhimento e o sentimento de pertencimento a uma comunidade de iguais são pilares fundamentais para que as mulheres persistam nos treinos. Mais do que a repetição mecânica de socos, chutes e esquivas, as aulas tornam-se um espaço seguro de trocas. “A rede de apoio que se formou na nossa turma é algo muito importante, que me faz voltar toda semana”, confessa Marina. O esporte, nesse sentido, opera como um catalisador de socialização profunda, onde a técnica caminha lado a lado com o afeto e a segurança coletiva.
Entre a Autoproteção e a Realidade da Vulnerabilidade
O desejo de aprender a se defender é uma realidade palpável. Dados de uma pesquisa nacional realizada em 2026 pela Maximum Boxing reforçam essa demanda: 57,9% das entrevistadas afirmam que gostariam de aprender técnicas de luta com foco em autoproteção. No entanto, as especialistas alertam que a prática esportiva, embora extremamente empoderadora, não é um escudo mágico contra a violência estrutural da sociedade.
Mesmo com anos de experiência no Taekwondo de alto rendimento, a professora Izabela Pereira faz questão de trazer os pés das alunas de volta ao chão: a preparação física melhora a capacidade de reação, mas não elimina a vulnerabilidade inerente às situações de risco. “A gente fica mais segura, mas a questão da vulnerabilidade vai muito além disso”, pondera a instrutora, lembrando que a violência é determinada por múltiplos fatores que extrapolam a capacidade individual de defesa.
A grande chave das artes marciais está, na verdade, na mudança de percepção e no ganho de atenção. “Acredito que a gente fique mais atenta, talvez mais sensível a sinais que possam indicar riscos”, ressalta Izabela. Ao treinar o corpo para responder a instrução sob pressão extrema e gerenciar o estresse do combate, a mulher desenvolve uma leitura muito mais aguçada do ambiente ao seu redor. No fim das contas, a luta ensina a reconhecer os próprios limites, a valorizar o próprio corpo e a transformá-lo em um território de respeito, soberania e liberdade.
Fonte – USP
Texto com apoio da Inteligência Artificial/Edição da Coopnews
Foto – Divulgação




