Em um cotidiano cada vez mais acelerado e dominado pela presença constante das macro e microtelas, as bibliotecas andam silenciosamente esvaziadas no meio universitário. É raro ver estudantes ou professores carregando obras impressas fora de períodos específicos, como a preparação de exames ou a entrega de relatórios de avaliação. Diante desse cenário de dispersão digital, um instigante manifesto de autoria do professor Jean Pierre Chauvin, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, propõe um hábito simples e transformador: resgatar o costume de carregar livros físicos no dia a dia. Longe de ser um apego nostálgico, carregar e exibir um volume impresso funciona como um poderoso meio de recomendação silenciosa, capaz de contagiar até mesmo aqueles que não têm o hábito regular de ler. Historiadores do livro e neurocientistas de renome reforçam que o suporte de papel interfere diretamente na qualidade da leitura, facilitando a fixação e a compreensão profunda do texto. Ao adotarmos esse hábito em nossa rotina diária, estimulamos a curiosidade das novas gerações, incentivamos diálogos enriquecedores e abrimos caminhos para expandir nossa visão de mundo.
O silêncio nos corredores e o peso da dispersão digital “O senhor mire veja”, instigava o narrador de Grande Sertão: Veredas, clássico de João Guimarães Rosa que celebra setenta anos de publicação. Inspirado por essa provocação que convida ao olhar atento, o professor Jean Pierre Chauvin faz um diagnóstico realista e preocupante sobre a nossa relação com a palavra escrita: as bibliotecas universitárias estão cada vez mais vazias. Nos corredores da USP, frequentemente listada entre as cem melhores instituições de ensino do planeta, a circulação de volumes impressos tornou-se tímida. Professores e estudantes raramente são vistos transportando publicações, exceto quando pressionados por avaliações acadêmicas ou prazos urgentes de entrega de projetos.
Essa ausência tem explicações compreensíveis na rotina moderna. Muitos apontam o peso físico dos volumes impressos e a indiscutível facilidade dos gadgets e aparelhos eletrônicos. Há também quem reconheça que a era digital acabou por estruturar a dispersão como um modo permanente de existência. Entre as exigências de estágios cada vez mais precoces para os alunos e a sobrecarga de rotinas virtuais para os docentes, o espaço antes ocupado pelo papel foi cedido às telas eletrônicas. É exatamente contra esse fluxo de distração que a presença física do papel atua como um freio necessário para desacelerar o pensamento.
A ciência do papel e a qualidade do aprendizado A preferência pelos livros físicos não se baseia em mero sentimentalismo. Historiadores do livro apontam há décadas que a mediação editorial e a materialidade do suporte físico interferem diretamente na qualidade da nossa leitura e na apreensão profunda das mensagens escritas. Existe uma diferença cognitiva marcante entre interagir com uma folha de papel e rolar uma tela brilhante, assim como há um abismo entre o ato de digitar e o de escrever à mão.
Neurocientistas renomados destacam que a manuscritura é uma operação cerebral muito mais complexa e rica do que o simples ato de acionar teclas. O mesmo princípio se aplica ao manuseio do livro de papel: o contato tátil ativa áreas cerebrais essenciais para o foco e para a memória de longo prazo. Portanto, resgatar o suporte impresso é uma atitude que beneficia nossa capacidade de raciocínio, reflexão e retenção intelectual diante do tédio ou do trabalho excessivo.
O poder do contágio visual e do exemplo silencioso Para contornar o isolamento das telas, o manifesto sugere adotar a campanha “Carreguem Livros!” como uma postura diária. Transportar um livro visivelmente a caminho do trabalho, na ida ao consultório médico ou durante um momento de lazer é uma forma de irradiar mensagens positivas ao nosso redor, demonstrando que somos receptivos à palavra impressa. É também uma das maneiras mais eficientes e práticas de sugerir leituras a colegas de profissão e estudantes.
A visão física do livro carrega um potencial de contágio extraordinário. Ela desperta a curiosidade inclusive de quem ainda não desenvolveu o hábito de ler, pois pertence à própria natureza humana a busca constante por narrativas e o desejo de adquirir conhecimentos. Quando vemos uma pessoa lendo ou simplesmente carregando um volume, um canal invisível de interesse se abre.
Semeando curiosidade e conexões humanas O impacto social desse gesto alcança diferentes gerações. Para o público infantil, o exemplo de ler, abraçar, proteger e carregar volumes atua como um estímulo visual poderoso, alimentando a curiosidade natural das crianças em relação ao universo das letras. No ambiente profissional ou social dos adultos, a presença física do livro atua como um excelente facilitador de conversas reais na hora do café, promovendo interações que rompem as bolhas digitais.
Certas obras e determinados filmes possuem uma capacidade única de ampliar nossa percepção da realidade e ressignificar nossas vidas. Como bem expressou o clássico personagem Riobaldo, o mais importante do mundo é que as pessoas não estão prontas e vão sempre mudando e se transformando. Permitir-se estar acompanhado de livros físicos é garantir que essa mudança continue ocorrendo, afinando nossa sensibilidade e nos mantendo conectados com o que há de mais humano em nós.
Fonte – USP
Texto com apoio da Inteligência Artificial/Edição da Coopnews
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