Ciência e Tecnologia

Estudo identifica exposição combinada de praguicidas em alimentos

Pesquisadores reforçam importância da fiscalização e não recomendam reduzir o consumo de frutas e verduras
Mandioca, morango e espinafre apresentaram destaque no cálculo do risco cumulativo
Pesquisa da USP analisou 60 amostras de 20 categorias de alimentos

Um estudo realizado por pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da Universidade de São Paulo (USP) identificou a presença combinada de resíduos de diferentes praguicidas em alimentos consumidos pela população brasileira. Publicada na revista científica Foods, a pesquisa analisou 60 amostras pertencentes a 20 categorias de alimentos e avaliou não apenas a presença individual das substâncias, mas também a possibilidade de exposição simultânea a diferentes compostos. Mandioca, morango e espinafre apresentaram os maiores índices de preocupação no cálculo do risco cumulativo. Segundo os pesquisadores, resultados acima de 1 indicam que a exposição estimada ultrapassou o nível de referência considerado seguro em uma situação de exposição crônica, mas não significam que a pessoa necessariamente desenvolverá um problema de saúde. O estudo também encontrou casos de resíduos acima dos limites permitidos e substâncias não autorizadas para determinadas culturas. Os pesquisadores, porém, não recomendam deixar de consumir frutas, verduras e legumes, considerados fundamentais para uma alimentação saudável.

Frutas, verduras, legumes e raízes que chegam à mesa dos brasileiros podem apresentar resíduos de mais de um praguicida ao mesmo tempo. A combinação dessas substâncias chama a atenção dos pesquisadores porque seus efeitos conjuntos ainda são pouco conhecidos.

É o que aponta um estudo realizado por uma equipe da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da Universidade de São Paulo (USP) e publicado na revista científica Foods.

A pesquisa analisou 60 amostras de 20 categorias de alimentos e identificou diferentes tipos de irregularidades. Entre os principais destaques no cálculo do risco cumulativo estão a mandioca, o morango e o espinafre.

Segundo o pesquisador Gabriel Henrique Savietto, que desenvolveu o trabalho sob orientação da professora da FCFRP Marília Cristina Oliveira Souza, as amostras apresentaram misturas de resíduos que, quando relacionadas ao consumo e à toxicidade, atingiram índices superiores a 1, valor de referência utilizado no estudo.

Entre os praguicidas identificados estão clorpirifós, pirimifós, malation, imidacloprido e fipronil. Embora sejam utilizados principalmente no controle de pragas agrícolas, os compostos apresentam diferentes mecanismos de ação e formas de aplicação.

Presença de resíduos não significa, isoladamente, risco à saúde

Os pesquisadores ressaltam que a simples identificação de resíduos de praguicidas em um alimento não significa necessariamente que exista risco à saúde.

Segundo Savietto, essas substâncias podem estar presentes inclusive em frutas e verduras produzidas de maneira orgânica, em razão de possíveis contaminações ambientais da água e do solo.

Por isso, é necessário considerar qual substância foi encontrada, sua concentração e se o composto é autorizado para determinada cultura.

Outro aspecto considerado pela pesquisa é que a exposição não ocorre necessariamente a partir de um único alimento ou de uma única substância. Ao longo do dia, uma pessoa consome diferentes alimentos e pode entrar em contato com vários compostos simultaneamente.

“Diariamente consumimos diferentes alimentos e podemos entrar em contato com várias substâncias ao mesmo tempo. E, sobre essa exposição combinada, ainda não conhecemos completamente os efeitos da exposição prolongada a essas misturas e a forma como diferentes substâncias podem interagir no organismo”, afirma Savietto.

Pesquisa encontra resíduos acima dos limites permitidos

As concentrações encontradas variaram conforme os praguicidas e os alimentos analisados.

Em alguns casos, os compostos identificados eram autorizados para determinada cultura, mas apareciam em concentrações superiores ao limite máximo de resíduo permitido. Em outras situações, foram encontradas substâncias não autorizadas.

Um dos exemplos foi o carbofurano, identificado em amostras de tomate e pimentão. O composto está proibido no Brasil desde 2017.

Na abobrinha, os pesquisadores encontraram concentração de imidacloprido acima do limite máximo permitido.

Uma possível explicação, segundo Savietto, seria o não cumprimento do período de carência, intervalo entre a aplicação do produto e a colheita necessário para reduzir a concentração dos resíduos. O pesquisador também cita como possíveis causas a aplicação inadequada ou a contaminação cruzada.

Os resultados, entretanto, não podem ser generalizados para toda a produção de abobrinha do País, o que reforça, segundo o estudo, a importância do monitoramento.

Exposição combinada ainda é pouco conhecida

A avaliação da exposição simultânea a diferentes praguicidas encontrou os maiores índices de preocupação no cálculo do risco cumulativo em alimentos como mandioca, morango e espinafre. Na mandioca, por exemplo, o fipronil teve contribuição importante para o índice.

Para calcular o risco cumulativo, os pesquisadores consideraram as concentrações das substâncias em relação ao consumo médio dos alimentos, com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e o peso corporal de um adulto de 70 quilos.

Os compostos foram agrupados de acordo com efeitos semelhantes sobre o organismo, permitindo estimar a exposição conjunta.

De acordo com Savietto, índices superiores a 1 indicam que a exposição estimada ultrapassou o nível de referência considerado seguro e representa um potencial risco à saúde em uma situação de exposição crônica. Isso, porém, não significa que a pessoa necessariamente desenvolverá um problema de saúde, mas indica uma situação que requer atenção.

O pesquisador explica ainda que a legislação brasileira avalia os praguicidas individualmente, considerando os limites máximos de resíduos estabelecidos para cada substância e cultura. A exposição simultânea a diferentes praguicidas ainda não é considerada de forma sistemática na avaliação regulatória.

A pesquisa também aponta que diferentes substâncias podem atuar sobre mecanismos biológicos semelhantes. A literatura científica sobre a exposição simultânea a múltiplos resíduos de praguicidas ainda é limitada, especialmente quando considerada a alimentação da população brasileira.

Em determinadas situações, os efeitos podem ser aditivos ou potencializados pela exposição conjunta. O desafio, segundo o pesquisador, é compreender como essas substâncias interagem e quais são os efeitos de uma exposição crônica a essas misturas.

Os resultados também foram comparados ao Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (Para), da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Segundo Savietto, no ciclo mais recente do programa, cerca de 26% das análises apresentaram resíduos de praguicidas não autorizados para as culturas avaliadas.

Pesquisadores não recomendam deixar de consumir frutas e verduras

Apesar dos resultados encontrados, os pesquisadores não recomendam que a população deixe de consumir frutas, verduras e legumes. Pelo contrário, esses alimentos são considerados fundamentais para uma alimentação saudável.

A orientação de Savietto é manter uma alimentação variada e realizar a higienização adequada antes do consumo.

A recomendação inclui lavar os alimentos em água corrente e, quando indicado, utilizar solução sanitizante própria, seguindo as orientações do fabricante.

Outras alternativas apontadas são optar por produtos da época e, quando houver informações confiáveis sobre as práticas de cultivo, valorizar produtores locais e a agricultura familiar.

A higienização, entretanto, não elimina completamente a possibilidade de exposição aos praguicidas.

Segundo o pesquisador, a redução desse risco também depende de medidas mais amplas, como monitoramento, fiscalização e adoção de práticas agrícolas mais seguras.

Estudo aponta limitações e necessidade de novas pesquisas

A pesquisa apresenta algumas limitações. As amostras foram coletadas em uma única região, o Sudeste, o que impede a generalização dos resultados para todo o Brasil.

Também existem incertezas relacionadas à disponibilidade de dados toxicológicos para alguns compostos e aos efeitos da exposição a misturas de praguicidas.

Outra limitação é que a avaliação foi realizada apenas para adultos. Crianças e idosos podem apresentar maior vulnerabilidade devido a diferenças fisiológicas, peso corporal e padrões de consumo de alimentos.

Por isso, o grupo de pesquisa pretende ampliar os estudos futuros, incluindo diferentes grupos da população brasileira e aumentando o número de regiões, alimentos e praguicidas analisados.

Para Savietto, também é necessário avançar no monitoramento e na regulamentação dos resíduos de praguicidas no Brasil, verificando se as concentrações estão dentro dos limites permitidos e ampliando a avaliação da exposição simultânea a diferentes substâncias, alimentos e regiões.

O pesquisador observa que eliminar completamente a exposição a esses compostos é pouco realista, uma vez que eles estão presentes no ambiente e fazem parte de diferentes sistemas de produção de alimentos.

Nesse cenário, a redução da exposição depende tanto de escolhas individuais, como manter uma alimentação variada e hábitos saudáveis, quanto de medidas de monitoramento, fiscalização e adoção de práticas agrícolas mais seguras.

Savietto também destaca a importância do investimento em ciência. Segundo ele, grande parte dos dados sobre exposição e riscos relacionados aos praguicidas é produzida por universidades e instituições públicas, que dependem de financiamento e políticas de incentivo à pesquisa.

Assim, o enfrentamento dos possíveis riscos relacionados à exposição a essas substâncias envolve não apenas escolhas dos consumidores, mas também o fortalecimento da pesquisa científica, do monitoramento, da fiscalização e de políticas públicas baseadas em evidências.

 

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Fonte – Jornal da USP

Texto com apoio da Inteligência Artificial/Edição da Coopnews

Foto – Drazen Zigic/Magnific

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