O processo de envelhecimento traz consigo não apenas transformações biológicas, mas também profundos questionamentos sobre o papel do indivíduo nas redes de relacionamento e na sociedade. Em artigo publicado no Portal do Envelhecimento, a psicodramatista Silmara Simmelink propõe uma reflexão sobre como o resgate da espontaneidade e da criatividade pode transformar a maturidade, permitindo a criação de respostas novas diante de situações inéditas. Utilizando referências teóricas do psicodrama de Jacob Levy Moreno e análises do filme indiano A Lancheira, o texto examina o peso das chamadas “conservas culturais” — os padrões, códigos e rotinas herdados socialmente — e o impacto dos estereótipos relacionados à idade. A discussão ressalta que romper com a repetição automática e reconstruir o átomo social são caminhos fundamentais para que a longevidade seja vivenciada com vitalidade, autonomia e abertura para novos vínculos afetivos.
A forma como cada pessoa constrói sua trajetória ao longo dos anos passa, inevitavelmente, pelas estruturas sociais encontradas desde o nascimento. Conceitos criados pelo criador do psicodrama, Jacob Levy Moreno, ajudam a compreender esse cenário ao introduzirem a noção de “conservas culturais” — o conjunto de criações, produtos, códigos sociais, valores e jeitos de se comportar que já se encontram prontos quando chegamos ao mundo.
A partir desse legado, surge um questionamento central para a maturidade: se o contexto social já está estabelecido, resta ao indivíduo apenas repeti-lo? Para a teoria moreniana, a resposta é negativa. O ser humano nasce dotado do “fator E”, correspondente à espontaneidade e à criatividade, potencial que viabiliza a formulação de respostas originais e renovadas frente aos desafios cotidianos.
O impacto das conservas culturais e o envelhecimento
No envelhecer, as conservas culturais manifestam-se por meio de crenças, expectativas e imaginários coletivos que delimitam o que é socialmente aceito ou esperado para essa fase da vida, como o cerceamento de sonhos, afetos e novos começos. Muitas vezes, essas barreiras são internalizadas pelo próprio indivíduo, limitando suas possibilidades de ação antes mesmo de qualquer imposição externa — processo que dialoga com os debates contemporâneos sobre o etarismo.
Para ilustrar essa dinâmica, a análise publicada no Portal do Envelhecimento recorre à ficção do filme indiano A Lancheira (The Lunchbox, 2013), acompanhando a jornada do personagem Saajan Fernandes. Viúvo, próximo da aposentadoria e imerso em uma rotina rígida e solitária, o protagonista tem seu cotidiano transformado por um equívoco na entrega de marmitas, que o conecta a Ila por meio de cartas.
O intercâmbio de mensagens funciona como um objeto intermediário, flexibilizando barreiras e permitindo a reconstrução gradual de seu átomo social — a rede de relacionamentos com quem de fato convive. A partir daí, o personagem passa a reavaliar papéis sociais, reaproximar-se do afeto e experimentar atos espontâneos que rompem com a rigidez anterior.
A busca por novas experiências na maturidade
O percurso abordado no estudo enfatiza que a velhice não se resume a um dado físico ou à repetição estática de papéis desativados, mas constitui um território propício para a chamada “fome de atos” — a busca por novas experiências e pela transformação de si.
A espontaneidade atua justamente como o vetor capaz de remover tensões e conflitos, viabilizando que o envelhecimento seja marcado pela vitalidade e pela abertura a novos modos de existência, resgatando a capacidade humana de sonhar e recriar o próprio caminho.
Fonte – Agência Sebrae de Notícias (ASN)
Texto com apoio da Inteligência Artificial/Edição da Coopnews
Foto – Divulgação/Agência Sebrae de Notícias (ASN)
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